Participação começou com exercício de empatia: “se o meu filho fosse o assassino dentro da cadeia, quem estaria ajudando ele?”.

Depois de perder o filho Yuri, Elisa encontra em projeto de leitura em presídios uma forma de lidar com a perda — Foto: Vaninha Bíscaro
Depois de perder o filho Yuri, Elisa encontra em projeto de leitura em presídios uma forma de lidar com a perda — Foto: Vaninha Bíscaro

Foi no início da tarde de um domingo que a pedagoga Elisa Helena Franco Gonçalves Vilas Boas recebeu a notícia, que, segundo ela, foi a mais difícil que já ouviu até hoje. O filho, Yuri Vilas Boas, na época com 24 anos, foi morto com um tiro por um agente policial de folga. O crime aconteceu na madrugada do dia 22 de maio de 2016 em Poços de Caldas (MG). Três anos depois, ainda é no projeto “Remição pela Leitura”, no qual voluntários incentivam a leitura para detentos, que ela encontra uma forma de lidar com a perda.

O Remição pela Leitura é um projeto da PUC Minas, do campus de Poços de Caldas (MG). As atividades são feitas no presídio da cidade, em Andradas (MG) e na unidade de Botelhos (MG), cidade onde Elisa mora e participa do projeto. A ideia foi ao encontro do pensamento de Elisa, que sempre viu na literatura uma forma de lidar com a realidade.

O amor pelos livros sempre esteve presente na vida da pedagoga. Depois de perder um dos três filhos, ela encontrou na escrita uma forma de externar o luto. Justamente por causa da literatura é que encontrou a primeira forma de amparar-se: com o apoio de mães que também passaram por histórias parecidas com a dela.

Cerca de seis meses após perder o filho, Elisa resolveu participar do projeto Remição Pela Leitura, no presídio de Botelhos — Foto: Elisa Vilas Boas
Cerca de seis meses após perder o filho, Elisa resolveu participar do projeto Remição Pela Leitura, no presídio de Botelhos — Foto: Elisa Vilas Boas

“Quando eu comecei a expor o meu luto com textos e poesias nas redes sociais, algumas mães que também perderam os seus filhos entraram em contato comigo, pedindo ajuda ou tentando me ajudar. Cada dia é uma que precisa da outra nessa montanha russa de sentimentos”, relata Elisa.

Mesmo depois de perder Yuri em um crime que, até hoje, não teve a motivação esclarecida pelo autor, ela decidiu dedicar seu tempo para ajudar justamente aos que cometem crimes, pois se questionou quem ajudaria o outro lado. Foi então que, cerca de seis meses depois da morte do filho, ela descobriu o Remição pela Leitura, que colocava em prática esta ideia.

O dia mais escuro da história

Elisa e família costumavam se reunir na fazenda onde viviam, em Botelhos (MG) — Foto: Arquivo Pessoa/Elisa Vilas Boas
Elisa e família costumavam se reunir na fazenda onde viviam, em Botelhos (MG) — Foto: Arquivo Pessoa/Elisa Vilas Boas

Ao lado do marido e dos três filhos, Elisa vivia dias coloridos e cheios de poesia. “Nós moramos em Botelhos, uma cidade bem pequenininha, e a infância dos filhos foi muito gostosa, de ir para a fazenda, reunir os primos, os amigos, a família toda. Quando o Yuri cresceu mais, eu já mandei ele para estudar em Poços. Depois os irmãos foram também, no mesmo esquema de ir e voltar todos os dias”, relembra.

Yuri continuou os estudos em Poços de Caldas e estava no último período do curso de Ciências da Computação quando houve o dia mais escuro da história da família.

“Ele nunca foi um aluno daqueles exemplares. Não tinha caderno, não tinha caneta, mas na hora da cobrança das provas ele se superava. Ele estava no último período, com o TCC pronto, ia se formar em junho e faleceu dia 22 de maio, com tudo pronto para a formatura. O sonho dele era cursar música na Unicamp, já estava inscrito em vestibulares de novo”, lembra a mãe.

Pouco antes do crime, que aconteceu na madrugada de um sábado, Yuri estava com um amigo com o qual tinha uma banda. Os dois tinham um show marcado e decidiam as últimas músicas do repertório quando foram ao apartamento do amigo de Yuri.

“Ele ia apresentar um show em um bar no outro sábado e passou aquele dia todo ensaiando. Faltavam umas músicas para escolher, foi quando eles foram para o apartamento depois que eles estavam em um bar, e este moço pediu para ir junto”, conta Elisa.

Yuri era músico e se prepara para um show na noite em que foi morto em Poços de Caldas (MG) — Foto: Lukas Malaquias
Yuri era músico e se prepara para um show na noite em que foi morto em Poços de Caldas (MG) — Foto: Lukas Malaquias

Yuri havia conhecido o autor do crime naquele dia. O homem era escrivão da Polícia Civil e havia sido afastado da corporação por oito meses por conta de um quadro de depressão. Na noite do crime, o autor havia bebido e, segundo o delegado que cuidou do caso, ele sabia que não poderia misturar bebidas alcoólicas com os remédios que tomava e, por isso, foi considerado culpado.

O amigo de Yuri contou à polícia que não houve discussão entre os dois e que Yuri não havia feito nada que pudesse ter motivado o crime. O escrivão sacou a arma e efetuou um único disparo.

A vida não continua

Os três filhos de Elisa moravam juntos em Poços na época do crime. Depois de perder Yuri, o filho mais novo terminou o ensino médio morando sozinho no mesmo apartamento e, atualmente, cursa Economia em Campinas (SP). A filha de Elisa mudou-se depois de se casar. Apesar disso, para a mãe, a vida não continuou depois de perder o filho.

“Como ele era músico, onde tem música a gente lembra dele. As comidas que o pai fazia para os filhos, ele faz ainda, mas a felicidade não é completa mesmo. A vida não continua. A gente se reformulou, a gente monta outra estrutura, não somos mais os mesmos. A gente reformula para conseguir sobreviver. A gente vive um dia de cada vez.”, detalha Elisa.

Parte de uma nova fórmula

Projeto Remição pela Leitura ajuda mãe a lidar com perda de filho em Botelhos (MG) — Foto: Guga Sarges
Projeto Remição pela Leitura ajuda mãe a lidar com perda de filho em Botelhos (MG) — Foto: Guga Sarges

Para seguir em frente foi preciso encontrar uma nova fórmula. A de Elisa inclui o projeto Remição pela Leitura. De acordo com o Prof. Dr. Davidson Sepini Gonçalves, Elisa é igualmente importante para o projeto, tão querida para o professor como foi Yuri.

“A professora Isa é uma inspiração para a gente. Ela viveu todo esse drama e ainda sofre com toda essa situação de perder o filho, que inclusive foi meu aluno, foi aluno da PUC. Ele era uma pessoa que todos nós gostávamos muito, uma pessoa de talento que poderia estar aí com a gente e acabou sendo morta nesta situação”, declara.

O professor considera, ainda, que a participação de Elisa é algo muito significativo diante das experiências dela. “Ao invés de se revoltar e fazer o que quase todo mundo faz, que é fazer uma crítica agressiva ou exigir vingança, ela dentro dessa grandeza de espírito, de alma, tomou uma atitude diferente e tem ajudado significativamente nesse processo de tentativa de mudança de perspectiva, para que essa experiência de leitura possa ajudar aos que cometeram os delitos a ter uma vida diferente. Ela, mais do ninguém é uma grande protagonista desse projeto. Fiquei muito feliz quando ela se interessou e ela nos ajuda muito. Ela sofre na pele o que nós apenas imaginamos”.

“É a prova que o ser humano pode tratar aqueles que se desviaram do caminho como seres humanos, e não como objetos, gente que não tem valor e que merece apenas castigo e vingança. Ela é uma pessoa muito especial e importante para o nosso projeto”, finaliza o professor.

Elisa e Davidson compartilham a mesma visão de que o projeto pode ser transformador para os detentos. O professor conta que o projeto começou em 2015. Ele informa que os voluntários são muito beneficiados com a experiência e que, para os presos, os resultados são ainda mais expressivos.

Projeto Remição pela Leitura acontece nos presídios de Poços de Caldas, Caldas e Botelhos — Foto: Guga Sarges
Projeto Remição pela Leitura acontece nos presídios de Poços de Caldas, Caldas e Botelhos — Foto: Guga Sarges

“A gente tem relatos de mães de presos, meninos que foram soltos e adquiriram o hábito de leitura, voltaram a estudar. É uma mudança de perspectiva mesmo, de sair e não cometer mais crimes, saber que existe um outro mundo, com outras possibilidades, que muitas vezes não é fácil, mas que é possível. A leitura desperta isso, e todo mundo ganha”, acrescenta o professor.

Outras cores

Elisa segura Yuri quando criança, filhos passaram a infância em Botelhos (MG) — Foto: Arquivo Pessoa/Elisa Vilas Boas
Elisa segura Yuri quando criança, filhos passaram a infância em Botelhos (MG) — Foto: Arquivo Pessoa/Elisa Vilas Boas

Apesar de não ter mais as cores que tinha com a presença de Yuri, a vida da família de Elisa vai, aos poucos, ganhando outros tons. Além de continuar uma leitora assídua, Elisa se preocupa em continuar com o projeto de leitura. Ela pede doações de livros, que podem ser entregues no campus da PUC em Poços de Caldas, para que mais pessoas se envolvam com a literatura.

Na família, uma nova cor também está a caminho. “Em dezembro vou ser avó! E sei que tenho muita luz vindo aí pra colorir nossos dias! Nada substituirá a presença do Yuri, mas saber que nossas sementes estão vingando lindamente, nos alimenta!”, conta, esperançosa, Elisa.