Entre o cinismo e o sentimentalismo: quanto vale uma vida?

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Qual o valor econômico de uma vida humana? Para muitos, a pergunta soa ofensiva. Afinal, a discussão sobre o valor de uma vida se daria no campo da filosofia, jamais da economia. Esse raciocínio faz sentido – o valor de uma vida, de fato, é intangível e não pode ser calculado apenas com métricas econômicas -, mas esse sentimentalismo não nos informa sobre o que deve ser feito em situações difíceis como a atual pandemia. Ficar parado refletindo sobre questões filosóficas não vai ajudar ninguém.

Na peça “O Leque de Windemere”, escrita pelo britânico Oscar Wilde, um interessante diálogo entre duas personagens – Cecil Graham e Lorde Darlington – aborda essa questão com um toque de humor inglês.

“O que é um cínico?”, indaga Cecil Graham num dado momento. No que responde o Lorde Darlington: “É alguém que sabe o preço de tudo e o valor de nada”. A tréplica de Graham é ácida: “Já o sentimentalista, meu caro Darlington, é aquele que vê um absurdo valor em tudo, mas não sabe o preço de mercado de nada”.

Pois bem: os economistas Michael Greenstone e Vishan Nigam, da Universidade de Chicago, dedicaram-se à cínica tarefa de calcular o preço de mercado da vida humana.

Se você leu minha última coluna, este novo estudo responde às principais críticas

 Antes de resumir o que eles descobriram, vale a pena um flash-back para meu último texto aqui na InfoMoney –  “Quarentenas podem beneficiar a economia no longo prazo”. Nele, resumi alguns estudos publicados nos dias anteriores que sustentavam a conclusão. Um deles calculava a perda de capacidade produtiva causada pela pandemia – afinal, quanto mais trabalhadores morrem, menor o potencial produtivo após o pico do Covid-19.

Duas críticas surgiram a partir daí. Oscar Wilde diria que uma é cínica e a outra é sentimentalista.

Os cínicos alegaram que a maioria dos mortos por Covid-19 são idosos já aposentados, portanto a morte deles não reduziria a força de trabalho ou o potencial produtivo da economia. Já os sentimentalistas apontaram a dimensão intangível presente no valor da vida, pois seres humanos não são apenas máquinas no processo produtivo – além de trabalhadores, somos pais, mães, avós, irmãos, amigos, etc.

As duas críticas estão corretas, mas nenhuma delas se aplica ao estudo que descrevo neste novo texto – o de Greenstone e Nigam, da Universidade de Chicago. Eles adotaram uma estratégia diferente para abordar o assunto, controlando pela idade dos mortos e considerando custos econômicos além da perda de capacidade produtiva.

O valor de uma vida

 Michael Greenstone e Vishan Nigam se dedicaram a entender qual o valor econômico de uma vida, mas com uma abordagem diferente e que vai além do potencial produtivo.

A base para as estimativas foi a observação do comportamento de americanos frente a problemas de saúde. Em tempos normais, quanto as pessoas aceitam pagar para diminuir sua probabilidade de morte em 1%?

Ao calcular o preço que se aceita pagar por uma redução na probabilidade de morte (o objetivo de diversos serviços médicos), é possível chegar ao “preço de mercado” da vida humana – ou valor de uma vida estatística (VSL, na sigla em inglês). É importante notar que este método tem como base o valor econômico que as famílias e pacientes atribuem à vida. Não há juízo de valor por parte dos pesquisadores, apenas a observação de um comportamento passado.

Pessoalmente, considero essa abordagem muito interessante e frutífera. “Isto porque vocês, economistas, são todos uns cínicos!”, dirão alguns leitores revoltados. A bem da verdade, eu responderia o oposto: há cinismo neste tipo de cálculo, mas trata-se de um poderoso argumento que aumenta a capacidade de persuasão dos sentimentalistas e pode salvar vidas neste momento de pandemia.

Qual a conclusão do estudo?

 Greenstone e Nigam reúnem as observações sobre o valor econômico da vida e os principais modelos epidemiológicos sobre o Covid-19, concluindo que medidas de quarentena e distanciamento social fazem sentido sob um ponto de vista econômico e materialista.

Como referência, utilizam o número de vidas salvas por uma política severa de distanciamento que dure até 4 meses, conforme calculado por modelos do Imperial College que auxiliaram a tomada de decisão de governos por todo o mundo.

Isto é, multiplicando o valor estatístico da vida pela quantidade de vidas salvas, é possível estimar o valor econômico gerado por medidas de distanciamento social, como quarentenas.

O valor da vida estatística, por faixa etária, é o seguinte:

Faixa etária Valor estatístico da vida Vidas salvas com distanciamento social
0 a 9 anos U$ 14,7 milhões 442
10 a 19 anos U$ 15,3 milhões 1.381
20 a 29 anos U$ 16,1 milhões 6.892
30 a 39 anos U$ 15,8 milhões 17.455
40 a 49 anos U$ 13,8 milhões 31.080
50 a 59 anos U$ 10,3 milhões 133.234
60 a 69 anos U$ 6,7 milhões 413.949
70 a 79 anos U$ 3,7 milhões 561.694
80 anos ou mais U$ 1,5 milhão 595.824

O resultado é que o valor econômico das vidas salvas pelas medidas de distanciamento chegaria a U$ 7,94 trilhões de dólares, mais de 40% do PIB americano ou 4 vezes o que o governo pretende gastar para manter as pessoas em casa. Isto é: o custo econômico da recessão provavelmente será menor do que o custo econômico decorrente das vidas ceifadas na pandemia.

Vale notar que este não é o único benefício econômico das medidas de distanciamento. A morte de milhões de pessoas num curto espaço de tempo poderia causar traumas ainda mais profundos entre a população.

Alexandre Schwarstman, meu colega no InfoMoney, foi feliz ao parafrasear Churchill para abordar o assunto: “nos é dada a escolha entre a pandemia e a recessão; se escolhermos a pandemia, teremos também a recessão”, escreveu, lembrando utilizada pelo britânico para recusar negociações com Hitler.

Caso decidamos seguir a vida normalmente para salvar empregos, rapidamente a realidade nos obrigará a voltar à quarentena. Mesmo que nossa prioridade seja a maximização do bem-estar econômico, o ideal é usar este momento para salvar vidas: fique em casa.

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