Esvaziamento temporário de favelas poderia salvar 41 mil em SP e no Rio

A adoção de uma série de medidas contra o novo coronavírus em favelas poderia diminuir salvar até 26 mil vidas no Estado de São Paulo e até 15 mil no Rio de Janeiro, além de diminuir a pressão sobre o sistema de saúde. A informação é de um estudo feito por pesquisadores com o coletivo Favelas contra o coronavírus.

Os cálculos foram feitos por pesquisadores especialistas em modelagem de dinâmica de sistema mostra os resultados obtidos ao adotar possíveis medidas como o esvaziamento temporário das favelas para combater a covid-19, já que nas comunidades as ações de isolamento social são consideradas, praticamente,  impossíveis.

Os pesquisadores criaram um simulador para estimar o efeito de ações combinadas em diferentes proporções, como a remoção temporária de moradores para hotéis; subsídio a insumos de higiene; renda básica para comprar produtos; estruturas emergenciais de saneamento; expansão de UTIs e uso de máscaras faciais.

A análise feita para o Estado do Rio, onde vivem, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 2,2 milhões nessa condição, o grupo avaliou que as medidas poderiam salvar até 15 mil vidas.

Sem as intervenções em todo o Estado, os pesquisadores estimam que o Rio poderia ficar entre 41 e 93 dias sem vagas em UTIs, do melhor ao pior cenário. Com a adoção da estratégia, os dias sem UTI cairiam para algo entre 34 e 52 dias.

Para São Paulo, as condições poderiam salvar até 26 mil vidas. Sem intervenção, o Estado poderia ficar entre 42 e 105 dias sem vagas em UTI para novos doentes. Com essas medidas, os dias sem leitos caem para algo entre 38 e 70 dias.

“Estamos diante de um problema que é piorado pela desigualdade, pela pobreza”, afirma o engenheiro Vinícius Picanço, professor de Operações e Sustentabilidade do Insper.

Medidas governamentais

Os governos têm propostas para avaliar a situação em áreas periféricas. A Prefeitura de São Paulo informou, entre as ações adotadas, o mapeamento de todas as comunidades, a instalação 100 pias em “pontos estratégicos” para higienização e também o estudo para transformar o CEU em Paraisópolis em hospital de campanha.

No Rio, ações de higienização em mais de 50 comunidades também foram lançadas pelas autoridades e 40 novos caminhões-pipa foram ofertados para atender as áreas carentes. Além disso, a Secretaria de Assistência Social reservou mil quartos de hotéis para abrigar idosos e outras pessoas em condições mais vulneráveis. Até agora, no entanto, apenas 43 quartos foram ocupados.

Paraisópolis

A comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, vai colocar em funcionamento duas casas de apoio, com capacidade para abrigar 260 pessoas casa, para receber moradores diagnosticados com a covid-19, que convivem em suas casas com grupos de risco.

Os moradores também criaram uma estrutura de guerra, que conta até com “presidentes de rua” para monitorar a saúde da população. “Decidimos criar um espaço de acolhimento e isolamento para evitar a contaminação”, diz Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis e coordenador nacional do G10 das favelas.

Os presidentes da rua têm a função de conscientizar as pessoas para que fiquem em casa, distribuir doações, repassar informações corretas e monitorar, por meio do WhatsApp, a saúde das 50 famílias. Caso alguém tenha problemas, o responsável também aciona uma das três ambulâncias contratadas pela comunidade.

“Decidimos contratar as ambulâncias porque o Samu não vem para cá”, diz Rodrigues. “Não dá para deixar a favela à própria sorte: tem política para salvar bancos, shoppings, varejo e favela ninguém falou até agora como vai salvar.”

*Com informações do Estadão Conteúdo