Michael Akinruli foi preso em Lagos, na Nigéria, após um alerta vermelho da Interpol; Laurimar Pires e Atinuke, de nove anos, chegaram a Belo Horizonte no sábado após 5 meses de angústia.

Nigeriano que sequestrou filha é indiciado por três crimes pela Polícia Civil de MG
Nigeriano que sequestrou filha é indiciado por três crimes pela Polícia Civil de MG
Laurimar, mãe de Keke, delegada Renata Ribeiro e advogada Nádia de Castro Alves, em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (24). — Foto: Cíntia Paes/G1 Minas
Laurimar, mãe de Keke, delegada Renata Ribeiro e advogada Nádia de Castro Alves, em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (24). — Foto: Cíntia Paes

A Polícia Civil informou, nesta segunda-feira (24), que o nigeriano Michael Akinruli foi indiciado, no começo do mês, pelos crimes de falsidade ideológica, subtração de incapaz e desobediência.

O caso ficou conhecido depois que o pai levou a menina Atinuke para a Nigéria sem o conhecimento da mãe, a mineira Laurimar Pires, em janeiro deste ano. Na última semana, Michael foi preso em Lagos, na Nigéria, após um alerta vermelho ser emitido pela Interpol.

“Ele é o pai dela, apesar de tudo o que aconteceu, ela o ama e esse contato vai sempre acontecer. Outras questões relacionadas a isso, eu vou lidar com ele, mas ele vai sempre ter acesso à filha”, disse Laurimar.

Nesta segunda-feira (24), a delegada Renata Ribeiro, da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente, disse que Akinruli foi indiciado pelos crimes de falsidade ideológica, subtração de incapaz e desobediência.

Entenda os crimes

  • Falsidade ideológica – Michael Akinruli se apresentava como cônsul da Nigéria no Brasil, apesar de nunca ter ocupado o cargo. De acordo com a delegada Renata Ribeiro, ele foi auxiliar administrativo no consulado.
  • Subtração de incapaz – O nigeriano conseguiu no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) uma autorização para viajar com a filha durante seu período de guarda nas férias da menina. A mãe não foi informada pela Justiça desta autorização. Quando o pai não voltou com Keke em fevereiro, para o início das aulas, ele passou a ser suspeito de sequestro.
  • Desobediência – Como Michael se comprometeu com a Justiça de voltar em fevereiro e não voltou, ele cometeu o crime.

A volta de Keke

Amiguinho faz surpresa para Keke no retorno ao Brasil — Foto: Reprodução/TV Globo
Amiguinho faz surpresa para Keke no retorno ao Brasil — Foto: Reprodução/TV Globo

A menina de 9 anos chegou a Belo Horizonte com a mãe, na manhã de sábado (22), após ficar cinco meses longe de casa. Elas foram recebidas por parentes com faixas e pétalas de rosas. Edson Ferreira, padrasto da garota, estava feliz por ter a família completa de novo. Keke tem uma irmãzinha de 1 ano e 4 meses, a Maju.

Em casa, a garota foi surpreendida pela chegada do melhor amigo, Bernardo, que se emocionou ao reencontrar a colega. Em maio, na escola onde Atinuke estuda em Belo Horizonte, os amigos escreveram cartinhas e fizeram desenhos para ela.

E agora?

Olúségun Akinruli é acusado de sequestrar a filha e desaparecer na Nigéria — Foto: Laurimar Pires/Arquivo pessoal
Olúségun Akinruli é acusado de sequestrar a filha e desaparecer na Nigéria — Foto: Laurimar Pires/Arquivo pessoal

De acordo com a advogada Nádia de Castro Alves, que defende Laurimar, o processo criminal começa agora, com o encerramento do inquérito e indiciamento do nigeriano.

“A gente tem um longo caminho a ser percorrido. A gente tem que seguir com o processo. Que ele seja julgado e condenado pelos crimes que cometeu aqui no Brasil”, disse.

Segundo a advogada, apesar de a Nigéria não ter tradição em extraditar cidadãos naturais, a defesa de Laurimar entrou com o pedido para que Akinruli seja extraditado para o Brasil, para responder aqui aos crimes.

A delegada Renata Ribeiro citou que a Lei da Escuta Protegida, uma legislação regulamentada no fim de 2018, garante algumas medidas em casos em que uma criança ou um adolescente esteja correndo algum risco, entre elas o pedido imediato de prisão preventiva do possível agressor.

“Não tinha como não considerar o risco que a criança corria, foi levada de forma irregular pelo pai. Então, foi esse risco que tornou possível que a gente pedisse a prisão preventiva”, explicou.

Michael Akinruli conseguiu, no fim de 2018, uma autorização do Tribunal de Justiça de Minas Gerais para viajar com a filha em janeiro. Mas, essa autorização causou estranheza à defesa de Laurimar já que ela não foi citada e nem comunicada pela Justiça. O processo normal que ambos os pais da criança assinem a autorização, mesmo que o processo esteja na Justiça.

Keke, sequestrada pelo pai nigeriano, volta para casa após cinco meses — Foto: Reprodução/TV Globo
Keke, sequestrada pelo pai nigeriano, volta para casa após cinco meses — Foto: Reprodução/TV Globo

Ainda segundo a delegada, o nigeriano chegou a matricular a filha em uma escola em Belo Horizonte e comprovou residência fixa para justificar ao juiz que ele tinha laços fortes e estava estabelecido na capital para conseguir a autorização.

Como o nigeriano tinha a anuência da Justiça, ele não retirou a menina do Brasil de forma ilegal. Mas ele também não comunicou à mãe e nem à própria criança. Laurimar contou que Keke só soube que estava indo pra Nigéria no avião. Antes, o pai havia dito à ela e eles iriam para São Paulo comprar uma boneca.

Além do pedido de extradição, a defesa de Laurimar explica que uma forma de Akinruli ser preso é caso deixe a Nigéria, após ser liberado da prisão preventiva, e viaje para algum país signatário da Convenção de Aia. Desta forma, ele poderia ser capturado pela Interpol e trazido ao Brasil.

Mesmo com as dificuldades, Laurimar e a advogada acreditam na Justiça. A mãe tem a guarda exclusiva da criança, mas está aberta a negociações para que o pai tenha contato com Keke.

“Vamos conversar, né? Porque a confiança foi quebrada. Mas ele não deixou que ser pai dela”, disse.