Alessandra Souza foi resgatada em meio à lama de rejeitos. A irmã dela segue internada desde o dia do rompimento da barragem.

“Fizeram o almoço?”, perguntou Alessandra Souza à filha Lays, de 14 anos, e à irmã Talita, de 15, momentos antes de ouvir um estrondo e enxergar do quintal uma onda de rejeitos vinda da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Nenhuma sirene foi ouvida.

Cento e trinta dias depois, Alessandra toma sete medicamentos para conseguir dormir. Talita está internada em um hospital pago pela mineradora Vale, sem previsão de alta. O corpo de Lays está enterrado em um cemitério de Várzea da Palma, no Norte de Minas, cidade natal da família.

“Era tanta lama. Eu não conseguia respirar. Pedia a Deus para me levar depressa e salvar Talita e Lays. Aí eu vi o sol. Foi aí que percebi que estava na superfície. Me agarrei a um pedaço de pau e tive forças para gritar pelas meninas. Só Talita respondeu. Minha filha Lays não”, contou Alessandra.

Lays Gabrielle, de 14 anos, morreu na tragédia de Brumadinho. — Foto: Arquivo pessoal
Lays Gabrielle, de 14 anos, morreu na tragédia de Brumadinho. — Foto: Arquivo pessoal

Elas foram encontradas pelos amigos Jeferson Passos e Michel Guimarães. Os dois perderam parentes na tragédia. Talita, que teve uma das pernas e o quadril dilacerados, foi resgatada primeiro pelo Corpo de Bombeiros.

Alessandra foi levada por outra aeronave até a base montada em um campo de futebol de Brumadinho. Dali, as duas seguiram para o Hospital de Pronto Socorro João XXIII, em Belo Horizonte.

A lama aspirada por Alessandra contaminou as vias aéreas e acabou provocando uma infecção no crânio, onde havia uma rachadura. Parte da estrutura óssea teve que ser removida. Alessandra ainda terá que colocar uma placa para reconstruir a testa.

Pousada Nova Estância foi atingida pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho — Foto: Booking/Divulgação
Pousada Nova Estância foi atingida pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho — Foto: Booking/Divulgação

A família morava na Pousada Nova Estância, que desapareceu sob a lama. José Antônio Soares, marido de Alessandra e pai de Lays, que trabalhava no local, foi o único que não estava em casa no momento do rompimento.

“Não sei como vai ser agora. O que eu penso primeiro é na recuperação da minha esposa e da Talita”, disse ele.

Área onde ficava Pousada Nova Estância, em Brumadinho (MG), foi destruída pela lama de rejeitos — Foto: Adriano Machado/Reuters
Área onde ficava Pousada Nova Estância, em Brumadinho (MG), foi destruída pela lama de rejeitos — Foto: Adriano Machado/Reuters

Na última sexta-feira (31), Alessandra teve que voltar a Brumadinho para fazer exames de corpo de delito determinados pela Polícia Civil.

“A pergunta é essa: por que tanto tempo, quatro meses depois, fomos convocados?”, questionou José. De acordo com a Polícia Civil, a finalidade desses exames e oitivas é analisar o lapso temporal das lesões.

Vítima de Brumadinho perdeu a filha em meio à lama
Vítima de Brumadinho perdeu a filha em meio à lama

Para Alessandra, ir a Brumadinho é doloroso.

“Eu não quero mais morar nessa cidade. Quero ficar longe. Não consigo esquecer aquele barulho. O que eu queria era minha filha de volta. Isso não vou poder ter”.